Adoooro!


Deve ter uma ao seu lado agora gritando isso. Adooooooooooooooro!!! É a nova maneira quanto mais oooo, melhor quanto mais olho aberto, mais categórico, que as mulheres encontram para dizer: sim, querem fazer parte do positivo da existência.

É a moda dos tempos, uma espécie de bolsa Goyard laranja, R$ 3.760, para se usar na ponta da língua. Grátis. Uma bolinha de queijo Roquefort coberto com nozes moídas para dar um gosto no coquetel trivial dos dias. Experimente. Só os jovens adooooram, portanto, é uma palavra-bálsamo, um Botox semântico.

Ela carrega na cútis de cada vogal aberta um antirrugas embutido com betacaroteno. Use o dia inteiro. Mamãe e papai achavam o máximo ser do contra em 1976, debater a ditadura e pedir alguma coisa.

O bom agora é o contentamento diante que quer que seja, a manifestação sutil nas entrelinhas do adooooorode que já se tem tudo e o mundo conspira a favor. Usa-se na primeira pessoa. Requer-se – de brincadeira, porque é assim que elas levam a vida – apenas uma passagem no médico antes, para ele atestar quantos segundos a pessoa pode esticar o adoooooro sem comprometimento das funções do pulmão.

Do resto, buzine gáudio, gorgoleje o atual borogodó. É a nova calça saruel, para ser usada com camiseta de gola V entre as frases. Adoooore. Vai demonstrar, entre tantas outras senhas, que você é do bem, o que quer dizer coisa nenhuma, mas todo mundo repete feliz e dá a impressão de adiar a chegada da policia.
 
Pessoas que dizem adoooooro despedem-se com um beijo no coração ou se adooooooram muito com um beijo na alma. Todas bêbadas de um júbilo incontrolável. Vá na onda. Desconheça as complexidades, desconecte-se dos plugs racionais. Exclame a alegria orgânica que lhe preenche as veias. Essas descompromissadas da aprovação exacerbada, nem aí para a velha mania de criticar o planeta, põem-se em campo bafejadas apenas pela necessidade de um Cuca Frescas nos neurônios.

Querem distância dos chatos que pautam a vida pelo ceticismo, um agente cancerígeno que frustra os poros e copidesca as exclamações de como é bom sacudir a euforia. Adoooooro. Deixe de lado demandas idissincráticas, faça como este texto e dispense o uso de partículas negativas na regência dos verbos. Afirme o positivo, tire todas as interjeições do bolso e ponha sobre a mesa de jogo.

Garanta com ênfase que você está de acordo. Sim. Junte-se aos bois e siga a manada dos contentes. A ordem é estar satisfeito, vibrar junto. Ser gente boa, agregar valor, otimismo e sinergia aos seus. Os muito desanimados que continuem passando o bloqueador de cinismo fator 60FPS pelo corpo para criar a velha carcaça de enfrentar o mundo com o pé atrás. Uns tolos nostálgicos.

Vence quem é capaz de tamanha admiração. Por isso elas adooooram. É o novo mantra que atrai felicidade. Ela espanta, com seu alarido, os tristes, os deprimidos, esse gentio-tarjapreta incapaz de compreender.

Adoooooro chama sooool, chama ooooonda e tudo de boooom. Buzina, com seu oooo esticado até o limite da embolia, que você está satisfeita. Já era tempo. A vida se desinteressou pelo chorrilho de palavras que enchem os livros e tornam tudo muito, como a geração adoooooooro diz, boring. Para que tanta conjugação verbal, santo Deus? Tanto hífen e analise sintática, se dá para ser descomplicado? Aliás, perdoe a interrogação. Evite perguntas. Afirme. Reexclame. Vamos escolher uma palavra que sintetize e diga, com clareza, a que viemos.

De preferência uma que dê para tatuar de um lado ao outro da omoplata e sirva como código de barras do que lhe vai nos peito. É a geração adooooro, aquela que inventou o Twitter de 140 toques por mensagem e agora – ai, que preguiça, ai que preciso de tempo para aproveitar a felicidade – sonha em reduzir tudo em uma única palavra.

Mulheres modernas, assim como usam batom carmim e as unhas em craquelê, adooooooram com afetação. Desconhecem evidentemente que o verbo adorar pede transitivo direto indireto e que no momento em que apenas gritam adoooooooooooro, sem deixar pistas da regência, criam mais um daqueles mistérios em que são peritas. Elas adoooram, e ponto. Passam o astral adiante. Vieram ao mundo para comunicar o prazer, querem distância de qualquer debate sobre sintaxe das palavras.

Nem aí se os inimigos veem no adoooooro esticado um truque para preencher o espaço que deveria ser ocupado por outras palavras. Adoooooram - e o resto é silêncio. O ouvinte que complete o que elas queriam adorar. Sorry, mas a ração literária da coleção “Gossip Girl” com livro de cabeceira permitiu a elas refletir o mundo com apenas esta palavra.

Algumas, entusiasmadas pelo vocalise feminino, quando fazem outras frases, adoooram diminutivos. Nunca comem uma salada, mas uma saladiiiinha. Preferem, ao fofo, o fofiiiinho. Esticam sempre a sílaba tônica da palavra, como se passassem um lustra-móveis nelas. Tem pouco repertório vernacular da mesma maneira como ficou na moda poucos filhos. Precisam aproveitar a vida.

No pop do anos 60, o cantos francês Michael Polnareff fez sucesso com a música “Era uma boneca que dizia não e não”. A geração adoooooro que distância dessas repressões dos sentidos. Jamais conjugam o verbo não. Gastam todo o estoque, e junto foram as lágrimas no lenço de papel Yes. Elas dizem sim.

Querem exclamar felicidade diante das ofertas da vida e, incrédulas quanto às flechas de Cupido, descrente do poder de fogo das lanças masculinas, disparam interjeições como se fossem acentos em cima de cada ooooooooo de adooooooro. São lindas, são noivas, usam Pond´s. Nem aí se, ao terem os tímpanos vibrados pelo adooooro, os homens ao lado moram de óóóódio.

Por Joaquim Ferreira dos Santos - O Globo

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